
Um evento me chamou a atenção durante esta semana, ocorreu na segunda-feira, feriado do dia dos mortos, foi o chamado "zombie-walk".
Pois bem, apesar de ter sido convidado e de morar bem próximo de onde este evento ocorreu, eu não estive lá, preferi passar aquela incomum tarde calorenta em SP tentando dormir, relendo Demian de Hermann Hesse pela 29° vez e fazendo anotações sobre o excelente Bem-Vindo ao Deserto do Real de William Irwin.
Mas uma caminhada de adolescentes e jovens fantasiados de zumbis não poderia deixar de me chamar a atenção, eu que sou um aficcionado por filmes e gibis que mostram estas nojentas criaturas desde os filmes clássicos de George Romero até quadrinhos de superheróis mortos-vivos da série Marvel Zombies. Tudo que tem zombies me interessa.
A palavra zombie tem sua origem em dialeto afro-caribenho e designa um cadáver que voltou a vida por influência mágica. Segundo crenças primitivas comuns em países como o Haiti, um Feiticeiro ou qualquer seguidor do Caminho da Mão Esquerda ressuscitaria um morto em macabros rituais e o tornaria um escravo, pois o ressuscitado voltaria a ter vida em seu corpo, mas sua alma, mente e vontade individual estariam perdidas para sempre e sujeitas ao controle do Feiticeiro, que utilizar-se-ia dele para a realização de atos vis. Foi este conceito de zombie que se tornou uma fonte para os primeiros filmes e livros do gênero na época moderna.
Mas podemos encontrar um precursor dos zombies no Frankenstein de Mary Shelley, onde um cientista obcecado pela ideia da ressurreição consegue dar vida a um corpo formado por partes de diversos cadáveres. No entanto o monstro resultante foge ao controle e se rebela contra seu criador, mostrando inteligência. Uma alegoria ao mito do Pecado Original.
Outro precursor das histórias de zombies, na minha opinião, foi o filme mudo alemão "O Gabinete do Doutor Caligari", de 1922, este filme conta a história de um hipnotizador que controla a mente de um sonâmbulo chamado Cesare e o faz cometer crimes de assassinato. Foi um dos primeiros filmes a mostrar um clima soturno, inspirado na atmosfera das pinturas expressionistas alemãs mas que hoje passa como um precursor dos filmes de horror.
Mesmo na mitologia podemos dizer que o conceito de zombie não se restringe apenas a uma tradição afro-caribenha, há outras formas de manifestação muito parecidas. Por exemplo, na tradição judaica existe o Golem. Este é basicamente um ser feito de material inanimado, como pedra ou barro, que toma vida a partir de uma operação mágica para obedecer á vontade de seu criador, um Rabino-Mago. A palavra golem significa "tolo", "imbecil" ou "estúpido", ele é ativado quando se escreve a palavra "emet" (verdade) em sua testa, e é desfeito quando se apaga a primeira letra da palavra, formando então"meit" (morto).
Na tradição da Alquimia existe a lenda do Homúnculus, um ser humano artificial produzido a partir de sêmen ou sangue menstrual, ele seria uma miniatura humana de 12 centímetros e obedeceria a vontade do alquimista para realizar seus desejos. (Se você quiser fazer um leia o livro Magus, de Francis Barret).

No entanto a introdução na cultura popular do conceito de zombies como o conhecemos hoje é atribuída ao escritor americano W.B. Seabrook. Em seu livro "The Magic Island" ele narra uma história de mortos vivos que se passa no Haiti. Após isso o escritor H. P. Lovecraft também iria abordar o tema em contos como "O Modelo de Pickman" e "Herbert West-Reanimador". O primeiro filme de zombies foi "The White Zombie", de Victor Halperin, com Bela Lugosi, lançado em 1932. Nele um feiticeiro controlava uma horda de mortos vivos imbecis e sanguinários.
Daí até sua versão moderna comedora de cérebros que George Romero lançaria em 1968 em "Night of the Living Dead" os zombies iriam se afirmar como um dos temas mais interessantes para filmes de horror. Em parte perderiam a característica de serem criaturas controladas por um mago ou cientista, mas, gerados ao acaso ou pela vontade de algum vilão maligno continuariam sendo seres idiotas sem pensamento próprio, com raras exceções. Os zombies de hoje podem ser vampiros, alienígenas, humanos normais contaminados por doenças misteriosas ou vítimas de experimentos científicos, mas raras vezes são relacionados a magia.

Bem, eu falei tudo isso porque eu tenho um fascínio por zombies, acho que não é a toa que surgiu um evento como o zombie walk e que este vem se espalhando por todo o mundo tornando-se uma das principais manifestações culturais da juventude nas grandes cidades.
Obedecendo a popularidade dos zombies em filmes, gibis e videogames, fantasiar-se de cadáver e reproduzir os trejeitos dessas tristes criaturas sem vontade própria, imbecis que não fazem nada além de perambular tropegos como se estivessem presos de uma letargia, tornou-se algo divertido para uma moderna classe média por sí mesma anestesiada em um universo doentio de cultura pop, tecnologia alienante, drogas, pseudo-religiões e falência completa de valores.

Os zombies são a forma perfeita de expressão para uma juventude morta-viva que não tem nada como futuro a não ser os frios corredores de locais de trabalho e diversão controlada, quando é crime expressar personalidade e inteligência, quando o futuro mais desejado é fazer concurso público e tornar-se um bom funcionário pagador de impostos com salário fixo e aposentadoria garantida, quando a vida se resume a pagar contas e ter sua mente controlada pelas informações veiculadas na televisão e na internet, quando a única diversão e atividade social recomendada é anestesiar seu cérebro no fim de semana, ou após o expediente, com drogas de efeito passageiro e apaziguador, cocaína, cerveja, esportes....
O homem moderno é um zumbi, sua vida é desprovida de vontade, ele é controlado por hábeis engenheiros sociais, sua linguagem é manipulada a todo dia, suas formas de expressão e conceitos de valor. Dia após dia lhe são embutidas as ideias que ele deve reproduzir como um autômato, seu caminho na vida é indicado por filmes, novelas, livros de auto-ajuda, universidades, igrejas, jornais, forças exteriores que criam e recriam tudo que está em sua cabeça, domam-lhe vida como querem. Ele se torna um rico empresário, um político influente, uma dona de casa consumista, um acadêmico de sucesso ou mesmo um vil assassino sempre por influências externas.
O modo como os jovens de hoje tendem a ver a produção econômica como sua obrigação básica na sociedade e aceitam o conceito mercadológico de educação que vem sendo imposto como algo bom e desejado é uma prova de sua condição zombie. O modo como os adolescentes se relacionam com as questões sexuais apenas ecoando valores trabalhados nas academias e na mídia, do sexo como algo apenas material e sem importância e a decadência do afeto como forma de expressão do ser humano é uma prova de sua condição zombie. A transformação das crianças em consumidores potenciais que automaticamente reproduzem "jingles" veiculados em anúncios é uma aterradora prova de sua condição zombie. O homem que passa a vida na frente da televisão desejando mulheres como objetos que lhe são oferecidas se ele comprar um carro ou uma cerveja é um zombie. A dona de casa que passa o dia desenvolvendo paranóias e medos de assaltos, sequestros e horríveis agressões a seus filhos é um zombie.
O garoto que é convencido de que saber chutar uma bola num campo gramado vestindo um shortinho ridículo numa festa de caratér homoerótico é uma grande realização humana, é um zombie. A garota que vende sua virgindade pela internet é um zombie e a viciada em cocaína que dá o suado dinheiro de seus pais para traficantes comprarem armas e pagarem propinas para policiais e políticos também é um zombie. O intelectual de universidade que fuma maconha e se acredita um homem livre mas que não faz nada além de reproduzir discursos de velhos funcionários representantes de uma sociedade falida é um zombie.
Você que tem no niilismo uma desculpa pra não fazer nada, que acha que sua vida é algo passageiro e sem sentido, que se recusa a ver que é um ser único e especial, que tem um Deus dentro de sí, que reproduz um discurso de perdedor mesmo sendo um belo varão de classe-média bem alimentado e sadio, você é um idiota, um zombie. Você que aceitou o termo "nerd", que passou a achar lindo ser chamado de imbecil e tem como razão de viver ser um escravo da indústria do entretenimento, você é um zombie. Você que se deixa manipular por igrejas, templos, sinagogas e mesquitas, é um zombie. Você que lê este blog e se acredita um cara inteligente mas não passa de um viciado em internet sem vergonha na cara que nunca faz nada construtivo na vida nem aproveita sua inteligência para mudar o mundo a sua volta com ações práticas, você também é um zombie.
Em algum lugar há um mago negro manipulando você, escrevendo "verdade" na sua testa e você, como um bom escravo, acredita e segue a vontade deste crápula, sai pelas ruas, compra o que ele te manda, realiza suas vontades, obedece-lhe as leis, entorpece sua mente com as drogas que ele criou pra te deixar controlado e se comporta como um legítimo imbecil, anda trôpego pra lá e prá cá, maqueado e ridículo, rindo como uma criança retardada. Você é um escravo sem vida nojento e deprimente e esta achando tudo isso muito divertido, você é um obediente zombie!!
É por isso que o zombie walk irá crescer e se tornar a maior expressão cultural juvenil do mundo, por que este evento é a mais perfeita manifestação da juventude já imaginada. Em todos os países haverá zombie walks, em todas as cidades, todos os meses do ano, quem sabe até todas as semanas e todos os dias, em algum lugar haverá sempre um grande zombie walk.
Até que um dia alguém apague uma letra e escreva em nossa testa: "morto".